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Crise de Identidade
*por Tom Coelho
Meses atrás viajei para ministrar mais uma palestra.
O trajeto de ida foi à bordo de um avião e tripulação
da Varig. Ao término do vôo, a comissária comunicou
aos passageiros: “Obrigado por voar Varig-TAM. Varig: ontem, hoje
e sempre”.
Meu retorno deu-se através de um avião
e tripulação da TAM. Desta vez os agradecimentos tiveram
o seguinte formato: “Obrigado por voar TAM-Varig. TAM: uma empresa
que tem orgulho de ser brasileira”.
Naquelas poucas palavras estava a síntese da crise
de identidade proporcionada por processos de fusão ou incorporação
de empresas que deixam para considerar, por último, o aspecto humano.
Não se tratava apenas da diferença entre os slogans e do
conflito entre as cores azul e vermelha. Tratava-se de culturas distintas
e de empresas com modelos de negócio diferenciados. Tratava-se
de anos de disputa pelo espaço físico nos saguões
dos aeroportos e pelo espaço subjetivo na mente dos consumidores.
E, mais do que isso, tratava-se de um jogo sobre quem permaneceria em
exercício e sobre quem iria engrossar as estatísticas de
desemprego.
Era cristalina a tensão estampada no rosto daqueles
profissionais. Não bastasse atuarem num negócio que tem
a responsabilidade imanente da segurança e a pressão contínua
envolvendo prazos e horários – as pessoas não compram
assentos em aviões, compram economia de tempo – viam-se às
voltas com a incerteza de seus próprios futuros.
Quando um jogador de futebol atinge determinada idade
e abandona os gramados, ele pode se tornar um técnico, montar uma
escolinha ou investir em outras atividades fazendo uso dos recursos financeiros
acumulados ao longo de sua carreira. Quando um executivo deixa seu posto,
por opção ou por dispensa, pode buscar uma recolocação
no mercado, tornar-se um consultor ou partir para uma carreira empreendedora.
Mas o que pode fazer um profissional cuja expertise é pilotar aviões,
caso seja demitido? Quantos conseguirão se recolocar num mercado
formado basicamente por apenas três agremiações, de
uma das quais ele está saindo?
Evitarei dispor de meu espaço e de seu tempo para
relatar números sobre a situação financeira destas
duas companhias. Tampouco tenho propriedade para falar sobre a tal crise
da aviação civil, embora julgue incompreensível o
resultado negativo de uma equação cujas variáveis
são passagens mais caras, serviços mais modestos e aumento
da taxa de ocupação dos vôos. Intriga-me o fato de
as companhias aéreas optarem pela efemeridade dos assentos vagos
em detrimento de sua ocupação promocional com custo mais
acessível. Esclarece-me o fato de outro player, a Gol, optar por
sequer distribuir jornais em virtude de seu balanço apontar um
lucro líquido por passageiro transportado da ordem de R$ 0,80.
Ou seja, a mera distribuição de um jornal seria suficiente
para tornar a operação deficitária.
Interessa-me saber o que farão com os milhares
de profissionais envolvidos, mais do que a cor da última linha
do balanço. O Estado brasileiro se desenvolveu e esqueceu a nação,
as empresas brasileiras cresceram e esqueceram as pessoas que nelas trabalham.
Crise e Oportunidade
é velha a estória de que toda crise traz
consigo ruptura e oportunidade. A sabedoria chinesa (wei-chi) e grega
(kairós) nos legaram isso. O curioso é que estamos permanentemente
em crise, nunca satisfeitos com o que temos. Feito crianças que
lutam para serem presenteadas com um brinquedo novo e o abandonam após
quinze minutos de divertimento, estamos sempre descontentes. Nossas crises
pessoais são diárias. Nossas empresas estão em crises
constantes. Nosso país atravessa uma crise ininterrupta. Por isso,
resta-nos o tempo todo a necessidade de mudar e a urgência de fazê-lo
enquanto ainda nos resta tempo. O tempo é longo, mas nossos dias
são breves.
Assim, aos que atravessam crises, tenho muitos desejos.
Desejo-lhes primeiro o discernimento, porque é preciso separar
as crises reais das imaginárias e distinguir o “mudar”
do “mudar para melhor”. Desejo-lhes a flexibilidade, pois
deve-se aprender a curvar-se diante da inexorabilidade dos fatos mesmo
quando confrontados com os argumentos mais sólidos. Desejo-lhes
a ousadia, porque é preferível tentar e arriscar a inclinar-se
frente ao receio e às adversidades. Desejo-lhes a criatividade,
pois o mundo solicita que se faça diferente para que se possa evoluir.
Mas, sobretudo, desejo-lhes a coragem, para dominar o medo, para realizar
escolhas, para abdicar da estabilidade infeliz, para combater a hesitação,
para negar o que não lhes convém e para exigir o que lhes
é próprio, por direito divino. Você faz o que te dá
medo e ganha coragem depois. Não antes. é assim que funciona.
Já disse isso antes...
Mediante o uso destes atributos, empresas poderão
cultivar o desafio de ingressar em novos mercados, casamentos de conveniência
poderão permitir-se capitular, talentos artísticos enrustidos
atrás de mesas de escritório poderão ser revelados.
Mediante o uso destes atributos, seus relacionamentos
poderão ser mais verdadeiros, seu trabalho mais digno, sua compaixão
mais autêntica, suas posses mais honestas e seu espírito
mais elevado.
13/05/2005
Tom Coelho é educador, conferencista e escritor com artigos publicados em 15 países. É autor de “Sete Vidas – Lições para construir seu equilíbrio pessoal e profissional”, pela Editora Saraiva, e coautor de outros quatro livros.
Contatos através do e-mail tomcoelho@tomcoelho.com.br.
Reprodução Autorizada desde que mantida a integridade
dos textos, mencionado o autor e o site www.tomcoelho.com.br e comunicada
sua utilização através do e-mail talento@tomcoelho.com.br
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