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Pão, Circo e o Patriotismo da Bola
*por Tom Coelho

“Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar.”
(Darcy Ribeiro)

Só se fala nisso. Os jornais impressos lançam cadernos exclusivos. Os noticiários no rádio e na televisão dedicam blocos inteiros para abordar o assunto. Surgem programas de debates de todos os tipos. De comentaristas esportivos a ex-atletas, passando por atores e atrizes, músicos e colunáveis, todos parecem dotados de uma licença poética para opinar sobre resultados, lances e escalações. Fazem prognósticos como se fossem cientistas, criticam como se pudessem nortear decisões.

As cidades ganham um colorido em verde e amarelo. Bandeiras tremulam nas sacadas dos edifícios, nas janelas dos veículos, nas mãos dos pedestres. As ruas ficam desertas durante os jogos, o comércio fecha, a indústria pára.

Enquanto isso, projetos deixam de ser votados no Congresso; empresas adiam investimentos; escândalos políticos são engavetados pela memória.

Há pouco mais de vinte anos, precisamente em janeiro de 1984, uma campanha pelas eleições diretas para presidente da República reuniu 300 mil pessoas no centro de São Paulo. E em agosto de 1992, foi a vez da manifestação popular pelo impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, reunir mais de 500 mil pessoas em 17 cidades.

Antes destes eventos, podemos mencionar, na década de sessenta, 1968, o “ano que não terminou”. E a abertura política celebrada pela lei da anistia aos cassados pelo regime militar, decretada em agosto de 1979. Mobilizações de caráter cívico parecem ocorrer neste país em ciclos de dez anos. Estamos atrasados...

A pátria de chuteiras hasteia suas bandeiras apenas a cada quatro anos por pacotes de alegria de noventa minutos. Em torno da bola, mostra uma capacidade ímpar de união e civismo. Quisera eu ver igual demonstração de organização por outras causas. Pela educação, pela saúde, pelo controle dos gastos públicos, pela redução da carga tributária, pela segurança, pela redução das desigualdades sociais, pela ética na política.

Em vez disso, optamos por enaltecer atletas que, salvo exceções, esqueceram o significado da palavra humildade. Fazemos apostas e comentários que não levam a nada. Discutimos sobre as decisões equivocadas de um treinador que age exatamente como a maioria dos líderes de nossas empresas, desperdiçando talentos em defesa de sua inflexibilidade.

Com telas e telões como coliseus e jogadores como gladiadores, temos nosso devotado circo. Com o bolsa-família, o aumento do salário mínimo e a correção da tabela do imposto de renda, temos nosso pão. Descalços, desdentados, descamisados, mas brevemente felizes.

Imperadores da Roma Antiga devem estar orgulhosos de seu legado milenar.

23/06/2006

Tom Coelho é educador, conferencista e escritor com artigos publicados em 15 países. É autor de “Sete Vidas – Lições para construir seu equilíbrio pessoal e profissional”, pela Editora Saraiva, e coautor de outros quatro livros.
Contatos através do e-mail tomcoelho@tomcoelho.com.br.
Reprodução Autorizada desde que mantida a integridade dos textos, mencionado o autor e o site www.tomcoelho.com.br e comunicada sua utilização através do e-mail talento@tomcoelho.com.br

Obs: O conteúdo dos comentários a seguir são de inteira responsabilidade de seus respectivos autores.
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Autor: Tom Coelho
Comentário:   Sr. Fernando, que tipo de profundidade é possível esperar de um artigo com 4 mil caracteres e que não tem, e não poderia ter, a pretensão de ser um tratado capaz de esgotar um assunto?

O texto não é superficial. Também não pode ser qualificado como séptico, pois diagnostica e também prescreve - algo visível somente ao leitor atento quando digo: "Quisera eu ver igual demonstração de organização por outras causas. Pela educação, pela saúde, pelo controle dos gastos públicos, pela redução da carga tributária, pela segurança, pela redução das desigualdades sociais, pela ética na política".

Recebo com carinho e atenção todos os comentários que me são enviados. E respondo a todos indistintamente. E os melhores são aqueles que conduzem ao debate propositivo. Infelizmente não é seu caso, pois optou, isso sim, por um comentário isolado, de quem certamente não acompanha meu trabalho e não se permitiu buscar a leitura de outros textos. Nisso sim, reside irrelevância.

Atenciosamente.
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Autor: Fernando Pansera
Comentário:   É uma boa demonstração de senso-comum, mas de pouca profundidade: percepção de fatos, comparação de fatos e resignação - esta é uma característica da Escola Séptica.
Texto superficial e irrelevante.
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Autor: wellington
Comentário:   òtimo Tom ... Digno de aplausos ... Gostaria eu que todos pudessem ver artigos como esse , mais nem todos tiveram essa sorte , que pudessem refletir que isso tudo é um circo onde os palhaços somos nós que estamos gastando nosso tempo com coisas banais ao invés de lutar para um País mais justo ... mas tudo bem , de todo mal se tira um bem ... somos a nata , nosso mal é pensar de mais , enquanto esses aí ...
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Autor: Marlene
Comentário:   Olá,amável Tom!
O seu artigo nos convida a refletir sobre
o momento atual,simplesmente o nosso
Pais está paralisado,pelo evento COPA
da ALEMANHA de 2006,concordo plenamente com você,como seria o Brasil se os brasileiros investissem esta energia dedicada ao futebol,para areas urgentes:como saude,educação e cidadania?!
Certamente ,o nosso País poderia ter
um outro cenário,onde cidadãos mais
humildes teriam acesso a sua dignidade,sem depender de favores
para sua sobrevivência,baseados em
sua contribuição eleitoral,na fase das
campanhas.
Que este artigo possa inspirar e nos
motivar a mudar este cenário no Brasil!
Um abraço carinhoso,

Marlene Nascimento
Pesquisadora ,SP
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Autor: Jaqueline
Comentário:   Olá Tom. Leio sempre os seus artigos e, na maioria das vezes, concordo contigo.
Dessa vez então, foi gratificante ler, de uma forma bem escrita e sem exageros, o que venho pensando e sentindo nesses dias.
Tenho 40 anos. Vivi minha adolescência toda sob a ditadura. Infelizmente, o tempo tem mostrado que as coisas só pioram, ou seja, a alienação (palavrinha antiga também) só aumenta enquanto comemoramos na bola o que poderíamos ser como sociedade.
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